Domingo, Janeiro 29, 2006

Transcendendo com Alan Watts

Em Meu Próprio Caminho
Alan Watts

Desde que o materialismo ascendeu como filosofia muita gente, dos mais variados matizes ideológicos concebe a religião, na melhor das hipóteses, como um traste inútil. O Alex Dias, por exemplo, não hesita em incluir a religião entre “as prisões”, isto é, coisas de que o indivíduo deve se libertar para atingir a liberdade plena. Pobres almas. Com certeza não conhecem a obra de Alan Watts, especialmente Em Meu Próprio Caminho, sua autobiografia.

Watts é bem conhecido de todos aqueles que algum dia já se interessaram pelos caminhos espirituais do Oriente. Seu O Espírito do Zen permanece até hoje como uma das melhores escritos existentes sobre o zen-budismo, conseguindo descrever os abstrusos métodos zen em linguagem acessível aos ocidentais.

Mas qualificá-lo como um simples erudito do oriente não lhe faz justiça. É que Watts era, antes de tudo um místico. Ou seja, além de estudar os ensinamentos do Oriente, esforçou-se por aplicá-los em sua própria vida, sem que essa aplicação significasse “tatamização”, palavra que os japoneses utilizam jocosamente para designar os ocidentais que aderem cegamente aos seus velhos costumes. Pelo contrário, ele sempre preservou sua independência de pensamento mesmo durante os anos em que foi sacerdote oficial da Igreja Anglicana.

Apesar de todas as religiões pelas quais andou, a vida e a obra de Alan Watts têm um fio condutor: a concepção de que a experiência mística é algo belo, libertador e que por isso mesmo deve ser reintegrado às grandes tradições religiosas do Ocidente. Ele nunca se conformou com o fato de que a liturgia cristã moderna se reduziu a uma série de leituras e recitações sem qualquer espaço para o misticismo. Tudo isso muito antes do “esoterismo de ocasião” que agora infesta nossas vidas e livrarias.

Longe de ser um “guru de ocasião” Alan Watts foi um místico incansável, que acreditava na santidade da vida. Jamais deixou que suas inclinações místicas se tornassem um álibi para a mediocridade como a maioria dos “esotéricos” atuais. E jamais deixou que as doutrinas que acompanham a religião se tornasse uma espécie de prisão, sempre construiu sua liberdade a partir de uma ética e visão de mundo próprias. Numa época em que o esoterismo de butique virou moda é um autor e um exemplo para lá de atuais.

Sábado, Janeiro 28, 2006


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Amar hoje em dia não está fácil...

Amor ou Amizade. Que tal Ambos?

Há alguns anos atrás lembro de ter lido um dos magníficos Sermões do Padre Antônio Vieira em que ele manifestava o seu ceticismo quanto ao mito do amor romântico. Muito antes que sexólogos moderninhos criticassem o amor romântico, o velho mestre questionava de forma até singela: se o tempo corrói até o ferro, que dirá o amor...

Uma ousadia, ainda mais para um padre católico, considerando que a Igreja, até hoje, ainda defende a indissolubilidade do matrimônio. Talvez por isso mesmo ele não enfrente a questão crucial que o seu texto coloca. Há espaço para o casamento monogâmico nos tempos que correm?

O casamento monogâmico é uma empreitada muito mais difícil do que se retrata na televisão. Mas não pelos motivos que se colocam normalmente. É comum se dizer que “o amor é cego” e de fato a maioria dos noivos não tem uma noção adequada sobre quem realmente é o seu parceiro. Mas acho que o problema maior não é esse. O casamento guarda uma armadilha muito mais insidiosa do que essa, a armadilha da identidade.

É o seguinte: a identidade de uma pessoa, ao contrário do que pensamos normalmente, não é um dado estático, que permanece no tempo e dura a vida toda. Pelo contrário, todo indivíduo é um ser em constante mutação, que transmuta sem parar todos os aspectos de seu corpo e personalidade. Por isso mesmo, inevitavelmente, acabará decepcionando seu parceiro romântico. Daí que tanta gente vive reclamando depois de um tempo que “não reconhece a pessoa com quem se casou”. Em alguns casos pode até ser que se trata do desfazimento de uma ilusão induzida pela paixão. Mas muitas vezes a pessoa tem mesmo razão, a amada não é mais a mesma porque todos nós não somos mais os mesmos.

Antigamente, quando a separação de um casal era um escândalo a resposta essa questão em geral vinha na acomodação de um casamento de conveniência. Os parceiros acabavam vivendo juntos de forma apenas nominal, muitas vezes arranjando amantes para satisfazer o anseio corporal pelo sexo.

Hoje em dia, como se separar é quase como comprar pão na padaria da esquina, o resultado não poderia ser outro: muitos casam e separam a torto e a direito, procurando sempre alguém que “não decepcione”. Outros desistem do casamento monogâmico e tentam relações em esquemas alternativos, tais como só namorar, promover casamentos abertos, etc. Essa posição vem sendo adotada por muitos estudiosos das relações amorosas que não hesitam em rejeitar a monogamia como algo anti-natural.

Provavelmente estão certos, pelo menos em parte. Quem já teve um relacionamento monogâmico por muito tempo sabe que invariavelmente acabará surgindo uma tentação. Num mundo superpovoado existem inúmeras pessoas interessantes e disponíveis. E resistir a uma tentação dessas não é fácil, embora não seja impossível. Ou seja, ao contrário do que se propagandeia por ai, a monogamia sempre envolve uma dose de sacrifício, um compromisso que deve ser preservado com a faca nos dentes, se necessário.

No entanto, o que os defensores do “casamento aberto” não percebem é que sentir atração por outra pessoa (que não o parceiro) é inteiramente humano, mas sentir ciúmes também é. Pouquíssimas pessoas conseguem vivenciar o amor e o sexo sem uma dose, moderada que seja, de possessividade em relação ao parceiro. Daí que um casamento aberto também acaba envolvendo um sacrifício, o de ver a parceira com outro. Para muitas pessoas isso é tão ou mais difícil do que resistir a tentação da traição quando ela se apresenta.

Assim, as relações românticas acabam se revelando um beco sem saída. Acho que é por isso que se vê por aí tanta separação e desilusão. Inúmeras pessoas, homens e mulheres, acabaram adotando o sexo casual não como lazer, mas como filosofia de vida. Nada contra, mas na maioria dos casos parece se tratar muito mais de uma atitude desesperada do que propriamente uma opção consciente de vida.

Qual a solução para o problema? Longe de ter a resposta definitiva, limito-me a lembrar uma coisa que raramente vejo, tanto na teoria como na prática: amizade. O senso comum informa que a amizade é incompatível com a atração sexual. Assim, construímos nossas relações sociais em duas categorias distintas, mutuamente exclusivas: a dos “amigos”, pessoas com as quais não praticamos o sexo e, “amantes, esposas e namoradas”, pessoas com quem temos relações sexuais. Assim, a amizade é vista como algo que está fora do âmbito das relações sexuais e amorosas, algo para ser partilhado “com os outros”. Esse tipo de concepção acaba levando ao que há de mais negativo nas relações amorosas em crise: violência verbal e às vezes até física, falta de respeito pelo espaço e modo de ser do outro, em suma falta de cortesia e educação em todos os níveis. Acabamos fazendo com a pessoa mais querida coisas que jamais faríamos a um amigo.

Na verdade a amizade é o tempero indispensável para as relações amorosas. Não garante o êxito, mas com certeza aumenta as possibilidades de felicidade para o novo casal, ao mesmo tempo em que garante uma separação bem menos traumática que o usual caso as coisas não corram como desejado. E se o casal tiver filhos estes terão uma lição preciosa sobre o valor da amizade, transmitida pelos pais através do mais poderosos de todos os meios: o exemplo.
Certa vez escrevi um manifesto denominado A Prática Transformadora em que defendi a amizade como a forma libertária de relacionamento por excelência. Me parecia que o sexo e as relações amorosas estavam por demais sobrecarregadas de tabus, símbolos e códigos para ter um potencial libertário. O que não me ocorreu na época é que a amizade pode ser libertadora também dentro do contexto amoroso. Ela oferece uma saída, algo que tantos casais malparados desejam desesperadamente. Como disse, não há garantia de nada, mas sempre que conhecer uma pessoa interessante e cogitar um relacionamento mais sério não custa se perguntar: será que fulana (ou fulano) daria uma boa amiga? Uma pequena regrinha que com certeza irá gerar muito mais felicidade para todos os envolvidos. E não é para isso que estamos nessa terra?
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Militantes do Hamas comemoram a vitória

Hamas

A vitória maciça do Hamas nas eleições palestinas parece ter pego toda a Imprensa de surpresa mas, sinceramente, não consigo entender bem o porquê. Eleições em países como o Egito e a Argélia já mostraram amplamente que fundamentalistas islâmicos têm sim densidade eleitoral. Os neoconservadores norte-americanos parecem acreditar que a realização de eleições livres no oriente médio ajudaria a pôr fim ao terrorismo. Bobagem. Se amanhã fossem realizadas eleições livres em todo o Oriente Médio o que se veria em muitos casos seriam um monte de novos governos patrocinando a Al-Quaeda. Pouquíssimos seriam verdadeiramente contra qualquer tipo de terrorismo.

Agora Bush e Cia. estão aprisionados em sua própria retórica. Não podem rejeitar abertamente o novo Governo palestino porque este foi eleito democraticamente. Melhor assim, Muita gente não percebe que uma das causas de toda a confusão do Oriente Médio é a contínua intervenção do Ocidente na região desde o século XIX. Qualquer solução, armada ou pacífica só acontecerá quando europeus e americanos pararem de meter o bedelho e deixar os locais se entenderem. Não deixa de ser engraçado ver europeus e americanos vociferando como árabes e israelenses devem se comportar como se fossem observadores inocentes. Não sou fã do Hamas mas, sinceramente, chega dos hipócritas de plantão.
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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Jornais e Futuro

Já faz um tempinho que se vem discutindo se a crescente popularização da internet vai acarretar o fim do jornal diário impresso, tal como existe hoje. O fato de que os grandes jornais vêm enfrentando quedas nas suas vendas, tanto no Brasil como no exterior, só faz reforçar a tese de que os jornais estariam caminhando para um fim.

Será mesmo? Não custa lembrar que os jornais diários já enfrentaram com sucesso o surgimento de duas mídias que produziam notícias de maneira mais rápida, o rádio e a televisão. Sobreviveram porque conseguiram se adaptar, acabando com as diversas edições diárias, publicando uma única edição, pela manhã, em que as notícias do dia anterior eram abordadas em maior profundidade, que a TV e o rádio, por suas próprias características, jamais poderiam proporcionar ao espectador.

Acontece que de lá para cá muita coisa mudou na Imprensa. Os jornais passaram a patrocinar pesquisas de opinião em que se indagava o que os leitores gostariam de ler e passaram a se pautar por esses levantamentos. O resultado foi, como não poderia deixar de ser, o nivelamento por baixo. O jornalismo de qualidade provoca o leitor, não tenta simplesmente informa-lo ou agrada-lo.

Ora, o que a internet proporciona, precisamente é o acesso a informação das mais variadas fontes, a maioria das quais (este blog incluído) está se lixando para que o leitor quer ou deixa de querer. Quando o escritor é consciente, se preocupa apenas em escrever um texto de qualidade, nada mais do que isso.

Não é por outro motivo que o melhor texto do jornalismo brasileiro está quase todo ausente da grande Imprensa. Tanta gente reclama da ausência de um novo Paulo Francis quando na verdade dificilmente Francis conseguiria iniciar uma carreira nesta era de jornalismo chapa-branca não só com o Governo, mas com o próprio leitor.

Assim, existe futuro para os jornais diários mas não para esses jornais que temos. Ou as redações param de paparicar o leitor, só escrevendo o que este quer ler, ou então os jornais estarão condenados a desaparecer lentamente, à medida que os viciados na leitura matutina (eu incluso) forem morrendo.

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Entrevista
O ano começou mal. Incrível como tantos comentaristas se esmeram em tentar extrair alguma coisa da entrevistavdo Lula quando a mesma consistiu, quando muito, num atestado de incompetência emitido pelo próprio presidente. Enfim...