Sábado, Novembro 01, 2008

Chegou a Hora

Expectativa

Flamengo X Portuguesa

No Maracanã.

Um dos desafios da imprensa esportiva nesse campeonato de pontos corridos é atrair a atenção dos torcedores desde o início. São 38 rodadas, o que significa que cada jogo vale apenas 3 pontos em 114 disputados ao longo do campeonato. Só neste ano o Flamengo deve ter jogado uns 10 “jogos decisivos” que de decisão só tinham o marketing. Valiam 3 pontos igualzinho a todos os outros, tanto que o rubro-negro perdeu vários deles e está aí, lutando pelo título.

Agora, porém chegou o “ponto de não-retorno”. Faltam 6 jogos, 18 pontos, o Fla está a 3 pontos do líder Grêmio. Joga em casa contra um adversário teoricamente fácil (a Portuguesa). Se perder ou empatar sai da briga pelo título. Claro, matematicamente ainda não estará fora mas mesmo que o Grêmio perca para o Figueirense (improvável) dificilmente terá moral para seguir adiante,

Mas o que é preocupante não é o adversário, nem mesmo a situação complicada da tabela. O problema é que esse time vem seguindo uma constante desde o início do ano, a de decepcionar a nação sempre que ela se entusiasma com a equipe. Foi assim no fatídico jogo contra o América do México. Foi assim contra o São Paulo no Morumbi, em que a torcida invadiu Sampa e ocupou mais de 1/3 do Morumbi. E, claro, foi assim contra o Galo no Maracanã. Essa então tinha tudo para ser uma tarde de gala: adversário fraco, Maracanã lotado, sábado de sol. Aquele jogo valia muito mais do que 3 pontos, o que estava em jogo era a reconciliação da nação com o time, fraturada desde o desastre da Libertadores. A faixa “o brasileiro é obrigação” colocada em todos os jogos no Maracanã é uma lembrança constante dessa ferida que ainda não cicatrizou. E o time, mais uma vez desperdiçou a chance de se redimir com a torcida.

Agora, no entanto, não há mais saída. A nação com certeza estará em peso hoje no maraca, ainda que um tanto ressabiada. Poderia falar muito sobre tática, técnica, jogadores mas quem conhece o Flamengo sabe que isso é o que menos importa nessa hora. Nas grandes decisões o que move o rubro-negro é a superação, a mística da camisa que tantas vezes fez o clube triunfar sobre adversários tecnicamente superiores.

O desafio do time do Caio Jr. não é jogar melhor que a Portuguesa, Grêmio ou Palmeiras. É mostrar de uma vez por todas que está a altura dessa mística, dessa história. Mostrar que são capazes de incorporar o espírito rubro-negro. Quem tem freqüentado o maracanã nos últimos tempos sabe esse espírito vem assombrando o estádio. Resta saber se o time é capaz de recebê-lo, de matar a pau com base na mística na paixão, como fizeram todos os grandes times da história do Flamengo. A conferir.

 

Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Alegria, Alegria

 Ortodoxia

G.W. Chesterton

 In Praise of the Fool and Other Writings

Erasmo de Roterdã

Cresci numa época em que era moda cair de pau no cristianismo. Meus pais se separaram cedo tomaram rumos bem diferentes em suas vidas, de forma que discordavam em muita coisa, mas havia sim um consenso: que a religião cristã era um atraso de vida, coisa de reacionários atrasados que veneravam um conjunto de regras ultrapassado que somente atrapalhava o bem viver. Por influência de meus avós pedi para ser batizado aos 5 anos de idade e, mais tarde para ser inscrito no catecismo para fazer a primeira comunhão. Mas depois, na rebeldia da juventude, abandonei tudo. Para quem queria viver a vida intensamente e com bom humor, o catolicismo parecia uma bagagem pesada e inútil. Parecia melhor jogar fora e foi o que fiz.  

Mas havia uma peça que não encaixava bem nesse quebra-cabeças: meu avô, a pessoa mais sábia e feliz que conheci pessoalmente. Embora católico praticante ele era uma pessoa informal, descontraída e bem-humorada. Além do mais era um livre-pensador independente e nunca deixou de salientar suas discordâncias com o Vaticano. Morreu pouco depois da chegada de Bento XVI ao papado, na esperança de que o mesmo instaurasse o “concílio Vaticano III”, que na opinião dele era indispensável.

Mas até agora o velho parecia um enigma indecifrável. O cristianismo me parecia de uma severidade irredutível. Aos poucos, no entanto, algo começou a mudar. Redescobri o prazer da música clássica e, claro, da música sacra. O canto gregoriano começou a passear pelo meu CD player de vez em quando. Aos poucos ia descobrindo uma estética suave, que, curiosamente pouco tinha a ver com a doutrina severa e puritana que via tantos cristãos proclamarem para quem (não) quisesse ouvir.

Não deixa de ser uma coincidência e tanto que esses dois livros tenham caído em minhas mãos logo agora. Embora escritos em épocas e contextos inteiramente diversos eles são curiosamente complementares.

Erasmo escreveu na Europa, na época da reforma protestante. Embora sacerdote de formação ele não era o típico pároco de Igreja, viveu em várias cidades escrevendo e servindo como conselheiro aos governantes da época. Foi talvez o primeiro intelectual a perceber a revolução potencial da Imprensa e usá-la em seu benefício: seus escritos eram distribuídos aos milhares por toda a Europa e mesmo depois que seu nome caiu em desgraça foi impossível erradicá-los.

Erasmo não gostava de Lutero, anteviu nele a alma embrutecida que seria responsável pelo banho de sangue que se seguiu. Mas curiosamente foi o primeiro a defender que a bíblia fosse traduzida, impressa e tornada disponível a todos os cristãos, antecipando os líderes da reforma. Em última análise foi o primeiro a defender o livre pensamento dentro do cristianismo. Sua herança é pouco lembrada hoje porque foi declarado herege posteriormente pela Igreja e não fundou nenhuma seita protestante. Recusou-se a tomar partido de qualquer grupo que fosse e manteve sua independência, sustentando-se com a venda de livros e dando conselhos para os poderosos da época. Mas curiosamente seu pensamento é atualíssimo, uma lembrança imprescindível de que o indivíduo é o verdadeiro agente de sua vida religiosa. Não há nada mais anti-religioso do que a confiança cega em pessoas ou instituições – qualquer instituição. Erasmo nos mostra que isso não é incompatível com o cristianismo, muito pelo contrário. Com o requinte de uma prosa saborosa e muito bem-humorada.

Bom humor que também é a marca registrada de Chesterton. Ortodoxia é o nome do livro porque tenta ser uma defesa da doutrina ortodoxa cristão, sintetizada no credo dos apóstolos. De fato é isso mesmo mas o mais interessante é a forma com que ele faz isso. Ao contrário de grande parte dos cristãos que sobe nas tamancas quando alguém desafia o seu credo, Chesterton topa debater alegremente com as grandes heresias de seu tempo. Ele esgrima argumentos, não gritos. Tenta vencer pela retórica, não pela força ou com leis.

As idéias que Chesterton defende, como ele próprio diz, não são novas. O que é novo em seu texto é a leveza e o bom humor, a sensação de que o cristianismo não impede, ao contrário, incentiva uma vida bem vivida, em que os prazeres devem ser experimentados, sim, “sem abuso”, segundo ele. Nada a ver com o puritanismo austero que tantos evangélicos adoram ostentar, como se fosse um crachá de fidalguia.

Porque além do puritanismo existe também o humanismo cristão que não rechaça a vida e seus prazeres, pelo contrário, pede-nos para abraçá-la. Vale a pena conhecer essa bonita tradição e esses dois livros são uma belíssima entrada para isso.

Uma pequena anedota contada por Paul Johnson em História do Cristianismo ilustra bem as diferenças entre os cristãos que perduram até hoje. Diz-se que quando Erasmo foi estudar na Universidade de Paris detestou o lugar: era sujo, úmido, os dormitórios fediam a urina e os açoitamentos eram frequentes. Calvino e Santo Inácio de Loyola, no entanto, que estiveram por lá na mesma época admiravam a austeridade do lugar, numa divergência que sintetiza o conflito entre humanistas e puritanos. O grande problema é que estes últimos fazem muito mais barulho e tentam convencer de que são os únicos cristãos verdadeiros. Mas não são. Graças a Deus.

Domingo, Outubro 26, 2008

O Dia Começou Pesado

Recebi por diversas fontes informações que os traficantes e as milícias estão jogando pesado para eleger o Eduardo Paes. São só boatos, mas são muitos, vindos de pessoas que não se conhecem e que moram em regiões diferentes da cidade. 

Ter uma filha às vezes é uma bênção. Se estivesse sozinho neste fim de semana provavelmente continuaria a acompanhar obsessivamente as notícias sobre as eleições até a provável decepção no final na apuração. Ao invés disso vou votar, almoçar e depois entrar no cinema para ver High School Musical 3... Não sou fã, claro, mas nas atuais circunstâncias foi a melhor coisa que poderia acontecer.

De qualquer forma é Gabeira!!! 43!!!

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Paes X Gabeira

22:38 - Gabeira surpreende, partindo para o ataque contra Paes, abandonando a postura tranquila e meio professoral que adotou durante toda a campanha. É uma estratégia dúbia, difícil saber qual será o efeito disso no eleitorado.

22:40 - Pelo menos temos um debate de verdade, com os candidatos fazendo perguntas um ao outro sem aquela palhaçada de eleitores indecisos tirando suas dúvidas.

22:42 - Pela segunda vez Gabeira toca no apoio dos irmãos Babu a Paes. Numa cidade traumatizada pela violência é inteligente lembrar o apoio das milícias ao adversário.

22:43 - Paes está o mesmo de sempre, com a postura rígida de "bonequinho de totó" como disse um companheiro tempos atrás.

22:45 - Paes volta a falar em integração com os governos estadual e federal, insinuando que Gabeira não vai conseguir recursos. É um argumento canalha, praticamente uma chantagem sobre o eleitorado.

22:47 - Paes admite abertamente que desconhece as questão de segurança pública, afirmando que a secretaria de segurança é que deve responder à pergunta de Gabeira. 

22:51 - Pergunta sobre saneamento não gera grande controvérsia. Os dois prometeram que investirão nessa questão em fim de papo. 

22:54 - Perguntado sobre desenvolvimento econômico da cidade. Paes promete reduzir impostos para incentivar o desenvolvimento, uma falácia que qualquer manual de economia mostra que não funciona.

22:58 - A coisa mais difícil é saber quem está marcando pontos num debate. Em 2006 o Geraldo Alckmin partiu para o ataque contra o Lula e terminou de perder a eleição ali, ao contrário do que esperava este escriba. Mas a impressão que se tem é que Gabeira está ganhando por poucos pontos. Nenhum nocaute até agora e nem é provável que aconteça, os dois estão muito táticos, pouco espontâneos, não abrem a guarda. 

23:07 - Gabeira desistiu de tentar o nocaute e está sutilmente tentando caracterizar Paes como alguém que pensa pequeno, incapaz de refletir sobre os problemas da cidade e do mundo. 

23:13 - Paes está prometendo um laboratório em cada posto de saúde. É inviável e impagável e ele sabe disso. Mas desconfio que grande parte do povão vai cair nessa.

23:17 - Pergunta sobre casas populares não dá em muita coisa. Os dois dizem que vão construir e acabou.

23:23 - Infelizmente o Gabeira embarcou nessa novela de redução de carga tributária. Isso não adianta NADA.

23:29 - Gabeira se irrita com a enésima menção de Paes ao prefeito César Maia. Essa insistência pode ser um tiro no pé, os vereadores e correligionários de César Maia tem mais prestígio na zona oeste do que se pensa. E, ao que parece, é lá que a eleição vai ser decidida.

23:37 - O tópico sobre favelas não deu em muita coisa, só num desfile de promessas de ambas as partes.

23:42 - Paes está tentando se vender como "o candidato do povão". Estratégia perigosa para quem age e fala até hoje como um mauricinho da Barra da Tijuca.

23:47 - O debate está acabando e com ele a nossa cobertura. Não me parece que vá ter grande influência no resultado mas, novamente, é difícil avaliar com precisão quem foi o "vencedor". Amanhã provavelmente já sairão alguns números. Veremos, deve ser a eleição mais emocionante dos últimos tempos.


Fernando Gabeira X Eduardo Paes

Hoje é dia de debate na Globo, o último e decisivo momento da campanha eleitoral mais acirrada que o Rio teve em muito tempo. Todas as pesquisas estão dando empate técnico. Qualquer deslize pode ser fatal para qualquer um dos dois candidatos.

Os dois tem vantagens e desvantagens em termos de performance televisiva. O Paes tem um estilo mais cauteloso e estudado mas a tensão que isso gera diminui um pouco sua credibilidade. Dificilmente falará algo que possibilite ao adversário dar nocaute mas é bem capaz de perder por pontos.

Já o Gabeira tem um estilo muito mais espontâneo e amigável aos olhos do telespectador. Mas, por isso mesmo, é menos cauteloso e de vez em quando faz declarações infelizes que já lhe custaram caro nesta campanha. Se chutar uma bola fora é capaz de perder a parada. Se não disser nenhuma bobagem ganha a luta por pontos o que, no contexto atual, pode lhe garantir a eleição.

Como os que me conhecem estão cansados de saber o meu voto é do Gabeira.  Mas vai ser interessante acompanhar o debate de hoje, talvez o momento mais crucial que a cidade maravilhosa já viveu. Estaremos acompanhando por aqui e de vez em quando daremos nossos pitacos. Você que também vai assistir ao debate está convidado a dar uma parada no nosso boteco quando for à geladeira para buscar a cerveja... 


Obina, um dos heróis da partida comemora com justiça

Futebol Bipolar

Flamengo 5 x 0 Coritiba

Maracanã com rádio

 Desde que Zico se aposentou o Flamengo desenvolveu uma cultura bipolar que oscila entre dois extremos inconciliáveis. Seja lá quem forem os jogadores basta o time jogar bem umas três partidas para que a torcida, os dirigentes e a própria comissão técnica entre numa espiral eufórico-delirante de que somos os melhores de todos, rumo a Tóquio, etc, etc, etc.. Ao mesmo tempo basta o time perder duas partidas jogando mal que a coisa se inverte: a torcida começa a xingar os jogadores, a pedir a cabeça dos dirigentes, deste ou daquele jogador, do técnico, agora somos os piores, seremos rebaixados, etc, etc, etc.

A novidade este ano é que a nação rubro-negra tem um time que responde  a esse transtorno bipolar com a precisão de um relógio suíço. Os últimos resultados são a mostra disso. Há pouco tempo atrás num sábado ensolarado a nação lotou o maracanã pronta para assistir mais um show de Léo Moura, Vandinho & cia. e presenciou uma atuação bisonha, sem técnica, sem garra, um time que andava em campo. Resultado: uma chinelada de 3x0 em pleno Maracanã por parte do Atlético Mineiro, atual 12º colocado.

Pois bem: depois dessa derrota vergonhosa e de uma vitória magra e bizarra sobre o lanterna Vasco, eis que o time encara o Coritiba, um time de valor, que ainda em busca de uma vaga na Taça Libertadores. Ninguém na torcida acredita mais no time, aparecem 30.000 gatos pingados que no início estavam mais do que dispostos a vaiar  e xingar, a impaciência com passes errados e falhas da equipe era flagrante. Eis que então assistimos estupefatos a uma exibição de gala, um chocolate de 5X0, num adversário de valor que saiu de campo humilhado.

Não bastasse a ciclotimia da torcida e do time, o Flamengo agora tem o Caio Jr. um técnico que alterna idéias geniais com imbecilidades dignas de um treinador de várzea. No fatídico jogo com o Galo ele  teve a idéia “genial” de escalar o argentino Sambueza na ala esquerda: um desastre. Hoje, no entanto, sacou o Luizinho que vinha jogando bem para colocar o desconhecido Fernando. Ninguém entendeu nada mas foi perfeito. Nessa altura o Fla ganhava de 2x0 mas estava acuado na defesa. O tal Fernando mudou o posicionamento da marcação, adiantou o time para o ataque, o que foi decisivo para matar a parada em 2 contra-ataques mortais. A partir daí foi tudo festa, com direito até a mais um gol do goleiro Bruno de pênalti, no finalzinho.

Todos aqueles que torcem para um time sabe que há dias em que a bruxa está solta e tudo dá errado. Já em outros os jogadores parecem estar em estado de graça e até costumeiros pernas-de-pau jogam com fina categoria. Mas ao que parece o Flamengo é o único que consegue alternar os dois estados em apenas 12 dias. O mais engraçado é que como nenhum dos outros times é um primor de regularidade o Fla pode ser campeão, está no páreo e vem de trás embalado e atropelando na reta final, como é costume nas grandes conquistas do clube.

Mas um prozac ajudaria um bocado... 

Sábado, Setembro 13, 2008

Salvamento do Lehman Brothers (link em inglês).

O governo norte-americano tenta desesperadamente salvar mais um banco sem gastar dinheiro público. Medida inútil. A iniciativa privada existe para lucrar e não para salvar o sistema financeiro. Claro que um grande banco pode até ajudar assumindo uma instituição quebrada mas só vai entrar na operação para lucrar o que significa alguma $$$ garantia $$$ do Governo.

A verdadeira decisão foi tomada anos atrás quando permitiram aos bancos fazer o que quiserem sem qualquer tipo de regulação. Não adianta chorar sobre os bilhões que serão gastos agora - o leite já foi derramado anos atrás. 

Em economia é assim: a conta pode demorar anos para chegar mas nunca falha.

Lula Onipotente

Existe uma tendência entre os formadores de opinião de atribuir toda e qualquer coisa ao governo federal, como se este fosse responsável por tudo o que acontece entre o céu e a terra. Com isso cometem repetidamente erros grosseiros como culpar o presidente pela péssima educação pública no Brasil quando a constituição é claríssima em atribuir a educação básica aos Estados e municípios. Claro, os próprios políticos gostam de encorajar essa ilusão, pois a esperança de que com um novo presidente “tudo vai mudar” ajuda a render votos. Mas depois de 20 anos de democracia e eleições diretas para presidente já era hora desse pessoal perceber que o presidente da república é apenas um governante, não um rei supremo temporário com mandato de 4 anos.

Mas o sr. Guilherme Fiúza se superou. Segundo ele os poderes do presidente extrapolam o território nacional e se estendem... à Bolívia! Vejamos:

 “ A Bolívia de Evo Morales está um caos. E o governo brasileiro, que ajudou a plantar e a regar esse caos, agora diz que não vai tolerar rupturas na Bolívia.”

 E mais adiante:

 “O cocaleiro Evo Morales era antiga aposta de Hugo Chávez para a Bolívia. Lula não só apoiou, como se meteu no processo eleitoral boliviano para favorecer o candidato chavista. Autoritarismo regado com autoritarismo.”

 “O grupo de Lula tem carteirinha desse imperialismo cucaracha que está na raiz da escalada violenta na Bolívia. É a mesma tática do apoio petista à revolução fajuta e criminosa das Farc.”

 Ou seja, em última análise a eleição do Evo Morales deve-se exclusivamente ao presidente Lula com uma pequena concessão ao Hugo Chavez. Nem uma palavra é dita sobre a elite branca que espolia o país há décadas tendo inclusive celebrado um acordo lesivo (para eles) com o Brasil segundo o qual o gás boliviano era comprado a 20% do preço de mercado. Nem uma palavra sobre os indígenas, que até a eleição de Evo Morales eram tratados como cidadãos de segunda classe em seu próprio país, muitas vezes em condição de semi-escravidão.

 Caiam na real senhores, vamos parar com esse delírio de onipotência. A crise na Bolívia nada tem a ver com o Lula. É fruto de séculos de espoliação dos indígenas por uma pequena elite branca que agora se vê a perigo de perder a rapadura e por isso mesmo quer se separar do país. Evo Morales é flor que se cheire? Longe disso. É apenas o fruto mais recente da longa tradição latino-americana de caudilhos autoritários que vem desde Perón e entre nós de Getúlio Vargas. Mas achar que a crise boliviana deve-se ao Lula é igorância, é ignorar um conflito que se arrasta na história boliviana há décadas.

 O Governo brasileiro errou? Claro, mas o erro maior  e verdadeiro é antigo, foi cometido quando tomou-se a decisão de pendurar toda a indústria brasileira no gás boliviano. Uma simples abertura dos livros de história mostraria que é imprudente depender tanto de um país que teve mais de 300 golpes de Estado em pouco mais de 100 anos de independência. Agora, achar que a nova (mais uma!) convulsão boliviana é culpa do Itamaraty não passa de mais um delírio brasileiro sobre a onipotência de seus governantes. Menos, pessoal, menos.

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Perguntar Não Ofende

Converso com um amigo gringo, conhecedor do Brasil mas meio por fora dos últimos acontecimentos. Difícil explicar que se abriu uma crise política em torno de um factóide. Finalmente ele compreende o que está havendo e dá uma passada de olhos nos jornais. A conversa se encerra com uma pergunta brilhante:

" - Esse Gilmar Mendes é candidato a que?

Pano rápido...

Quarta-feira, Setembro 03, 2008


Grampo Fantasma

O Brasil está parado por conta de um grampo. Não se fala de outra coisa: quem instalou, com que objetivo, se foi a ABIN, a Al Qaeda, etc. Só que até agora a única “prova” da existência de um grampo é uma fonte anônima da revista Veja, que supostamente trabalha na ABIN...

Fontes anônimas são legítimas no jornalismo mas devem ser tratadas com cuidado redobrado. Claro, não haveria Watergate sem o garganta profunda mas os jornalistas que tratavam do caso usavam as informações do “garganta” somente como ponto de partida para a investigação que fizeram. Jamais publicaram algo somente com base numa fonte anônima porque sabem, claro, que ela não tem lá tanto compromisso com a verdade.

A revista Veja não se deu a esse trabalho. Não “cruzou a fonte” como se diz no jargão jornalístico. Simplesmente pegou o que esse suposto araponga disse e publicou. Mesmo supondo que os editores da revista estejam de boa fé (e essa é uma baita suposição), o fato foi que fizeram um trabalho jornalístico porco.

Até aí tudo bem – há muito que a Veja é uma porcaria. Mas que uma reportagem capenga como essa seja usada pelo presidente do STF para disparar uma crise institucional e com isso o país fique literalmente de quatro é daquelas coisas lembram o maestro Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

A política do factóide é característica dos nossos tempos. Os americanos são pródigos em fabricar crises políticas com base em coisas tão importantes como um boquete de estagiária ou a contratação de prostitutas. Mas pelo menos nesses casos a libidinagem existia. Já o nosso grampo...

Definitivamente estamos nos especializando em fabricar crises em cima de nada.