Sábado, Novembro 27, 2004

A epistemologia é uma disciplina filosófica para lá de difícil. Ela se propõe a desvendar a própria estrutura do pensamento humano, como este surge e a partir de que pressupostos internos ou externos. É um assunto árido e abstrato mas fundamental para aqueles que se interessam por uma compreensão agnóstica do mundo em que vivemos.
Gregory Bateson foi um dos pensadores mais radicais a se concentrar na epistemologia e talvez o único a tentar incorporar à epistemologia as descobertas recentes da física, da cibernética e da teoria dos sistemas. Seus escritos são notoriamente de difícil compreensão. Daí a importância deste ensaio que, comemorando os 100 anos do nascimento desse grande filósofo (que tinha outra formação acadêmica, diga-se de passagem), procura apresentar uma introdução simples e didática às suas idéias. Para imprimir e ler com a calma que merece.

Ateísmo

Meu amigo Ram montou um bonito altar ecumênico na rede. Engraçado como são as coisas. Amigos de (quase) infância, estamos beirando os 30, mas enquanto ele está cada vez mais religioso (no sentido mais profundo do termo) eu acabei me afastando cada vez mais das práticas religiosas. Ao longo dos anos estudei e participei dos cultos mais diversos. Estive de sessões de meditação budista, missas, mesas de centro espírita e por aí vai. E minha fé foi minguando até sumir num agnosticismo difuso, mais sentimental do que racional.

Reconheço que isso não deve ser benéfico, seria muito melhor se eu acreditasse num Deus, orixá ou espírito a quem pudesse recorrer em momentos de angústia, aliviando o imponderável da vida. Mas não adianta, a despeito das toneladas de livros de teologia a religião autêntica é visceral. Não basta acreditar, racionalmente, é preciso crer com intensidade emotiva, com todas as entranhas do ser. Quem não sente isso, com todo respeito, não é verdadeiro religioso no máximo um aspirante.

Não há estatísticas mas a maioria dos intelectuais e artistas ateus acabou a vida se convertendo ou então acabaram no suicídio, rapidamente, ou no afogamento por uísque. Como todas essas alternativas me parecem indigestas, vou ter que procurar outro caminho. Tomara que os 30 anos seguintes bastem para encontrá-lo...
Posted by Hello

Sexta-feira, Novembro 26, 2004

Tortura

Entre os métodos usados no inferno para torturar as almas sem dúvida deve estar a dor de cabeça constante. Com pecadores mais graduados ganhando de brinde uma novalgina para aliviar. Em gotas.
Covardia

O sujeito faz um documentário sobre o presidente Lula, incluindo um depoimento de uma senhora dizendo que ele bebia pra valer. Distribui 30 cópias para a Imprensa. Depois faz uma nova edição em que o referido depoimento é excluído e ainda dá entrevista alegando que fez isso para preservar a depoente. No meu tempo isso tinha nome. Pior ainda quando é financiada com os nossos impostos através da lei do audiovisual.

Quarta-feira, Novembro 24, 2004

Reforma
Parece que a reforma ministerial será feita aos poucos, no estilo de Jack, o estripador. Sei que o presidente dificilmente leu Maquiavel (não lê nada mesmo), mas algum de seus ascessores bem que poderia avisá-lo que centenas de anos atrás ele já dizia que o Governante deve fazer o mal rápido. Só o bem deve ser feito aos poucos.
Estou começando a achar que o Lula não vai se reeleger. Não por estar fazendo um péssimo governo, o povo não é tão inteligente assim, mas simplesmente porque não domina os rudimentos básicos da política mesmo depois de passar mais de uma década como político em tempo integral. Se bem que mesmo seus partidários não se entusiasmam na defesa das faculdades intelectuais do atual Chefe da Nação.

Terça-feira, Novembro 23, 2004

Para Variar um pouco: futebol

A Imprensa malhou os times pelos gols perdidos, mas o fato é que se Flamengo e Botafogo jogassem daquele jeito todas vezes estariam muito longe da zona de rebaixamento. Em alguns lances houve mais mérito dos goleiros do que incompetência dos atacantes.
Sobre o Botafogo não sei muito, é chato falar, mas para o Flamengo o rebaixamento, seja neste campeonato ou no próximo, seria apenas o fim lógico e razoável do que vem sendo feito no clube todos esses anos. O time não é bom mas vem rendendo muito abaixo do que poderia. E ninguém explica porque o Dimba recebeu mais passes no domingo do que em todos os outros jogos do campeonato, somados.
O problema é que um empregador que não paga os salários em dia não pode exigir nada de seus empregados. Qualquer calouro sabe que em direito existe uma coisa chamada "exceção de contrato não cumprido", isto é somente pode exigir o cumprimento do contrato a pessoa que já cumpriu as obrigações assumidas. Uma singela noção jurídica muito útil para compreender o que vem se passando no time do Flamengo.

Domingo, Novembro 21, 2004

Sem comentários
O STJ decidiu que não incide IR sobre a ajuda de custo por comparecimento a sessões legislativas extraordinárias pagas aos parlamentares estaduais.

Sábado, Novembro 20, 2004

Segundo nota soltada pelo Maurício Valladares a revista The Economist noticiou que o Brasil está em 39o lugar em termos de qualidade de vida. Sinceramente se há alguma coisa que isso prova é que o mundo vai muito mal mesmo.
Se um país em que você escolhe apartamento visando diminuir a chance de tomar um tiro está numa posição honrosa como essa, imagina os piores colocados, lá para a centésima colocação. Triste.

Lembranças da Vida de Solteiro

Uma das coisas que tenho saudades da vida de solteiro é uma coisa singela, mas que para mim tinha um significado todo especial: gravar uma fita para uma garota.

Sempre acontecia quando eu havia saído umas 3 ou 4 vezes com ela e havia concluído que valia a penar tentar passar da qualidade de “ficação” para a de namoro. Às vezes dava certo, às vezes não. Mas o que me dá mais saudade eram as sessões de gravação das fitas. Geralmente eu sabia muito pouco ainda sobre a garota, sua personalidade e predileções musicais. Logo tudo era feito no terreno pantanoso da “intuição” conjugada com enquadramento em arquétipos. Lembro de uma que era bela e triste mais ou menos como o campo fica num dia chuvoso e nublado. Selecionei uma série inicialmente melancólicas mas que aos poucos, na seqüência, iam se animando até um jorro de esperança na faixa final. Para outra era ao mesmo tempo exuberante e delicada, selecionei uma série de canções animadas ponteadas por uma ou outra balada, sempre maneirando na distorção das guitarras ou de qualquer outra coisa que soasse agressiva.

Em suma, era um exercício fascinante que misturava ao mesmo tempo música e intuição, premonição e observação, racionalidade e emoção. Quase como lapidar uma obra de arte. Selecionando, gravando e ouvindo, muitas vezes trocando e improvisando faixas no meio da gravação quando sentia que algum clima estava ainda além da dose.

Em alguns casos, deu certo, elas adoraram e, desconfio, guardam as mesmas até hoje em memória dos bons tempos. Em outros, desconfio, foram direto pro lixo. Mas não importa. Em certas coisas o melhor não é o resultado final mas o prazer de fazer. A lembrança é o que fica.

Posted by Hello



Plebiscito e Olho Roxo

Dois acontecimentos marcaram essa semana. O primeiro aconteceu aqui no Rio de Janeiro em que o Jornal O Globo publicou algumas fotos de um criminoso preso em flagrante pela polícia após tentar assaltar um turista no Leblon. Na primeira foto, antes de entrar na delegacia ele tinha o rosto intacto. Nas fotos posteriores, após o “interrogatório” na delegacia ele exibia um notável olho roxo. O jornal qualificou o fato como “barbárie” e como resultado dezenas de leitores se deram ao trabalho de escrever para o jornal para reclamar aduzindo, em síntese, que a polícia agira corretamente e que “não tem nada demais” um bandido ser espancado por policiais, ainda que rendido e indefeso.

O segundo foi o fato de que a OAB encaminhou ao Congresso Nacional antreprojeto de lei que regulamentaria o disposto no art. 14 da Constituição que prevê que a democracia no Brasil será exercida não apenas através da eleição de representantes, mas também de plebiscito e referendo. Um plebiscito, segundo os juristas, ocorre quando a votação tem por objeto uma proposta genérica. Já o referendo trata de um projeto de lei já aprovado de forma que a população sabe em detalhes sobre o que está votando. Ao mesmo tempo tramitam no Congresso vários projetos que pretendem acrescentar outras consultas ao referendo sobre o estatuto do desarmamento que será realizado no ano que vem.

A utilização mais freqüente de plebiscitos e referendos traria inúmeros benefícios. Em primeiro lugar amenizaria o problema da distorção da representação popular no Congresso em que um voto de um cidadão do Acre equivale a centenas de votos paulistas na Câmara e milhares no Senado. Por outro lado seria um choque de realidade para muitos intelectuais de esquerda que não cansam de proclamar em alto e bom som a sua admiração pelo povo brasileiro.

Quando George W. Bush foi eleito não faltou quem criticasse a jequice do povo americano, que aproveitou para derrubar também o casamento gay e as pesquisas sobre células-tronco. A crítica é correta, mas o que incomoda muitas vezes é que os críticos aproveitam para emendar que aqui no Brasil as coisas são diferentes. Não são. O povo brasileiro é tão jeca, obtuso e provinciano quanto os americanos, se bobear mais. Sempre fico espantado quando pessoas intelectualizadas no Brasil proclamam peremptoriamente que “americano é burro” quando a elite brasileira é notoriamente ignorante e obtusa. Basta olhar as estatísticas. O típico brasileiro de classe média lê menos que os chilenos, mexicanos ou mesmo colombianos. Com os argentinos então a comparação chega a ser vergonhosa. Mas essa realidade permanece desconhecida, ou pelo menos camuflada pelo ufanismo reinante, agora fomentado com o dinheiro dos nossos impostos. Mas afinal de contas “O Melhor do Brasil é o Brasileiro”.

A realização regular de plebiscitos e referendos, além de retirar poder dos políticos, obrigaria os nossos intelectuais a encarar a jequice brasileira de frente. Que maioria do povo brasileiro acha, sim, que os acusados devem ser espancados nas delegacias. Que o Estado deve negar aos homossexuais os instrumentos jurídicos básicos para que possam levar a vida que desejam. Que grupos de extermínio de criminosos não fazem mais do que “limpar o lixo” da sociedade. Quem sabe assim aos poucos, o populismo voltará a ser apenas tática eleitoral de políticos e não uma praga que assola tudo que é falado e dito no Brasil.
Posted by Hello

Update: Um dia depois de ter publicado esta nota tive acesso a este artigo do jornalista Marcos Sá Corrêa em que este recorda que nosso presidente já se declarou favorável e linchamentos, pelo menos em algumas circunstâncias elogiando-os como "justiça". O Brasil tem um longo caminho pela frente até se tornar um país civilizado.

Terça-feira, Novembro 16, 2004


Diz-se que a classe média abandona a coalizão que governa hoje. É verdade. Diz-se também que reflui para a coalizão que governava antes. Só será verdade, por processo de exclusão e de desesperança, se não surgir força alternativa que encarne com mais autenticidade o que a classe média, e a massa de candidatos a emergente, querem.

Sejamos claros por que razão a classe média tende a abandonar o PT e seus aliados, ainda que continue a reconhecer exemplos isolados de competência no petismo. A política do governo atual se resume a assegurar confiança financeira e a prometer -- sem cumprir -- assistencialismo social. É política para rentistas e -- se fossem cumpridas as promessas -- para famintos. Não para produtores e para trabalhadores. Não para a classe média, antiga ou emergente, com que grande parte da nação se identifica. Não se trata de defeito que se possa sanar com iniciativas tiradas de bolso de marqueteiro. Exige reorientação da política econômica. E requer política social que liberte a classe média do pesadelo da mensalidade ecolar e do plano privado de saúde, construíndo escola pública e saúde pública de qualidade. O sacrifício das práticas republicanas ao bonarpartismo negocista completa o quadro de afronta à classe média. Um projeto de poder desse tipo no Brasil pode sustentar-se por anos. Pode até conseguir reeleição. Está, porém, marcado para morrer. Ninguém governa o Brasil por muito tempo apoiado em aliança entre os bancos e os grotões.

Sábado, Novembro 13, 2004



O Último Estadista

Yasser Arafat está morto. Com todos os seus defeitos, que eram muitos, pode-se dizer que foi o último estadista do século XX.

As crises e injustiças muitas vezes fornecem os grande líderes da humanidade. Como pensar em Roosevelt, por exemplo, sem lembrar da grande depressão em que o povo americano passou fome de forma nunca vista antes na história? Ou em Churchill, sem a tragédia dos bombardeios alemães na 2ª guerra mundial?

Yasser Arafat entrou no cenário mundial fruto de uma tragédia parecida, o fato dos palestinos terem sido obrigados a pagar a conta do holocausto judeu na segunda guerra mundial. Os alemães assassinaram judeus em escala industrial e em troca receberam após a guerra milhões de dólares em ajuda no plano Marshall. Os palestinos tiveram suas terras confiscadas e entregues aos judeus, como forma de compensação pelo que sofreram. Mais uma vez a Europa pagou pelos seus pecados com penitência alheia. E o ocidente, com todo respeito, estava se lixando.

Lá pelos idos dos anos 60 os palestinos, por assim dizer, sequer eram um povo. Maltratados e rejeitados por todos, motivo de piada em Israel pareciam destinados a desaparecer de forma muito semelhante ao que aconteceu com os índios na América. Arafat fundou a OLP com alguns colegas e conseguiu restaurar a dignidade dos palestinos, que eles se unissem sob sua liderança para resistir à ocupação de suas terras. É uma ironia histórica que esse processo tenha muitas semelhanças com o que ocorreu após a diáspora em que os judeus, a despeito de estarem exilados de suas terras, conseguiram manter seu povo unido e preservar sua cultura. É verdade que para isso usou muitas vezes métodos terroristas. Mas fica a pergunta: naquelas circunstâncias havia alternativa? Alguém acredita que os judeus teriam um dia concordado em sentar à mesa de negociação caso os palestinos tivessem se limitado a greves e passeatas pacíficas? Não podemos nos esquecer que parte significativa da população de Israel acredita ter direito divino ao território que ocupam. A simples retirada dos assentamentos da Faixa de Gaza, um território de tamanho ridículo e sem nenhum recurso natural valioso despertou apaixonada resistência entre os israelenses. Não parece que nada menos do que a guerra seria suficiente para levar o Governo de Israel e encarar de frente a resistência de grande parte do seu povo.

Arafat conseguiu unir o seu povo em meio a uma situação desesperadora e atravessou com ele tempos tempestuosos. Errou muitas vezes mas nunca abandonou seu povo. Muitos acham que ele errou em não aceitar o último plano de paz proposto que daria aos palestinos a Faixa de Gaza, a Cisjordânia além do controle de metade de Jerusalém. Só o tempo responderá essa pergunta. Mas não há dúvida de que o povo palestino, hoje, tem mais esperança e possibilidades do que poderia sonhar na época em que Arafat surgiu. Bons ventos o levem.
Posted by Hello
Meu amigo Rafael Lima escreveu um longo artigo em que afirmava que uma dos problemas da modernidade é ter confinado a religião ao quarto de cada um. Com todo respeito, discordo e acho que o declínio da religião não decorre, ao menos não diretamente, da modernidade. Escrevi um londo e-mail em resposta a ele, pensando em editá-lo para depois colocá-lo aqui. Mas como ando meio sem tempo lá vai ele cru mesmo:
Falem mestres!!! Achei que esse artigo do Rafael em seu blog merecia um comentário aqui na lista. Ele está anexo ao meu texto e, se preferirem, podem ler no Blog dele
Acredito que o Rafael errou num ponto: amodernidade não tornou a religião irrelevante, ela apenas confinou a religião à vida privada. Isso não torna a religião irrelevante: para 90% da humanidade as coisas mais importantes da vida- família, amigos, etc, estão na esfera privada. Nem implica na dessacralização das festas religiosas, como aconteceu com as festas juninas.
Acredito que o que tornou a religião irrelevantefoi a era de hiper-consumo detonada pelo desenvolvimento do capitalismo a partir dos anos 50. Nessa época não existiam mais mercados a serem descobertos, todo o mundo, exceto o bloco comunista, já estava em maior ou menor grau integrado ao mercado capitalista. A saída encontrada foi fomentar o crescimento dos mercados já existentes, mediante o incentivo ativo e militante do consumo. Daí que a publicidade e o marketing conheceram esse espantoso crescimento ao ponto de que mercados milionários como o de esportes, são sustentados e pagos quase totalmente pela publicidade.
Esse fomento ao consumo foi combinado a partir dos anos 60 à contracultura, gerando ums mistura explosiva que desembocou no hedonismo desenfreado a partir do anos 70 que na economia capitalistas e traduziu, naturalmente, em hiper-consumo.
Ora, esse modo de vida hedonista e consumista étotalmente incompatível com a doutrina dasgrandes religiões que, em maior ou menor grau,recomendam moderação nos prazeres do corpo e damente. O Ram, por exemplo, quando passou a levar sua religião mais a sério parou quase que imediatamente de beber álcool e comer carne vermelha. Uma outra consequência desse abandono das religiões tradicionais foi a explosão de cultos neo-pagãos do tipo "new age" que não exigem de seus fiéis qualquer tipo de ascetismo ou renúncia. Na versão mais extrema utilizam inclusive práticas sexuais em seus rituais.
Foi esse fenômeno da adoção do hedonismo e do hiper-consumismo como estilo de vida pelas massas que tornou as religiões tradicionais irrelevantes. Mesmo um jovem fiel católico, em 90% dos casos, não segue a doutrina católica sobre sexualidade pois será submetido a todo tipo de escárnio por parte de seus colegas e será rejeitado por grande parte das garotas de hoje, que não aceitam mais um relacionamento amoroso sem vida sexual ativa.
A grande sacada dos evangélicos, a meu ver, foi conseguir congregar as pessoas insatisfeitas como hedonismo como estilo de vida em comunidades próprias que levam uma vida paralela e discreta, só saindo do armário em ocasiões especiais. Uma delas foi a eleição de George W. Bush.
A existência dessas comunidades evangélicas dá àqueles que a integram força psicológica suficiente para resistir às tentações damodernidade e levar um estilo de vida alheio ao hedonismo vigente. Assim no nosso exemplo, um jovem evangélico pode encontrar nessas comunidades uma garota que também queira permanecer virgem até o casamento, além de desenvolver um círculo de amigos próprio, alheio a existência em escolas, clubes, etc. Nos meus tempos de faculdade havia diversos evangélicos. Em geral eram pessoas cordiais e amistosas mas normalmente, "não se misturavam muito" isto é, assistiam às aulas e caíam fora ,sem participar dos encontros no bar da esquina, chopadas, festas, etc. Provavelmente passavam esse tempo nas atividades de sua Igreja.
Nos ambientes de trabalho eles acabam desenvolvendo grupos próprios. Aqui mesmo no INSS há um grupo de oração que reúne evangélicos dediversas igrejas que se encontram diariamentenuma sala de manhã cedo para rezar.
Em suma, as comunidades evangélicas conseguiram construir uma tribo urbana à parte que rejeita o hedonismo que se tornou "a filosofia de vida" da maior parte das pessoas hoje. Não por acaso sãocontra todas as idéias que signifiquem ainstitucionalização desse status quo hedonista. Assim, por exemplo, são contra o casamento gay porque isso implicaria no reconhecimento oficial do Estado de uma tribo urbana que rejeita os ensinamentos das grandes religiões já que todas reprovam o homossexualismo em maior ou menor grau. Rejeitam o aborto não tanto porque consideram o feto como um ser humano vivo, mas porque sabem (ou intuem) que a possibilidade do aborto legal destrói uma das últimas barreiras fáticas para uma liberdade sexual plena (especialmente para a mulher) que é afalibilidade de todos os métodos anticoncepcionais. Assim, me parece muito perigoso quando se defende que esta ou aquela religião deveria ser "a base de nossa civilização" Isso significa, em outras palavras, que a religião deveria mediar os assuntos também na esfera pública que é inerentemente impositiva. Quer dizer, quando estamos na esfera pública há sempre a possibilidade de imposição legal de condutas. A retirada da religião para a esfera privada é condição essencial para a construção de uma sociedade aberta e pluralista.
É por isso que o Rafael constata que é "cada vez mais difícil enxergar um caminho entre o fundamentalismo e a religiosidade prêt-a-porter, de canto de mesa." Não é apenas difícil. É absolutamente impossível, se esse meio termo significar a reinclusão da religião na esfera pública. O mais engraçado da Guerra Santa de Bush contra o terrorismo é que a sociedade pregada por ele, em última análise, significaria a implantação, no Ocidente, de uma sociedade muito semelhante a uma teocracia islâmica.
Todavia, embora considere Bush um perigo acredito que a modernidade tem forças suficientes para se manter, até porque a nova direita religiosa é um fenômeno tipicamente norte-americano e, mais recentemente, brasileiro(lembram do Crivella?). A Europa parece estar imune ao neo-fundamentalismo cristão assim como não parece que o Japão esteja caminhando para uma teocracia. Na China então, nem se fala porque a ditadura lá existente parece estar disposta a reprimir os religiosos na ponta do fuzil. Assim, parece-me, mesmo nesta ressaca pós-Bush, que a modernidade tem forças suficientes para se manter firme ante o ataque fundamentalista. Para mim, sinceramente, isso é uma ótima notícia. Para Rafael, depois desse artigo, não saberia dizer.
Um forte abraço para todos.

Sexta-feira, Novembro 05, 2004

Já comprou a sua roupa de caipira?

Bush e a horda obscurantista que o apóia não nutrem a menor simpatia pela teoria da evolução darwinista, mas parecem entender como a coisa funciona. No admirável novo Império de Bush só os jecas sobrevivem.

 Posted by Hello

 Posted by Hello

 Posted by Hello

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Um Novo Começo

Ao contrário do que anunciaram os institutos de pesquisa, o Bush Ganhou. Para aqueles que, como eu, prezam os direitos civis e torciam por uma vitória democrata, o sentimento de decepção é normal é compreensível.

Mas acho que, no fim das contas, o resultado não foi tão ruim assim. Basta lembrar que três meses atrás previa-se um fiasco democrata, não a votação expressiva e derrota apertada que aconteceu. Os EUA continuam divididos e há espaço para que a defesa dos direitos civis

Mas os pontos positivos acabam aí. Provavelmente Bush, com seu autoritarismo messiânico, não irá se intimidar com a vitória apertada e deve partir para cima, acabando com o máximo de direitos, tentando impor sua religiosidade messiânica a qualquer custo. E isso seguramente irá afetar a todos nós, que vivemos na órbita dos EUA.

Assim, acredito que a derrota democrata deve soar para todos os liberais e libertários (de esquerda, pelo menos) como um chamado à batalha. Todos podem colaborar, não sendo necessário muito tempo ou dinheiro. No site da Anistia Internacional você descobrirá que, com uma hora por semana e alguns trocados para o correio você pode ajudar na luta pelos Direitos Humanos mundo afora. Pode ser um começo para mais quatro longos anos...

Terça-feira, Novembro 02, 2004

Consenso Mundial

Manchete de primeira página do mais importante jornal francês, o "Le Monde": - Tudo, menos Bush
Como a Repressão Aparece nos Lugares mais Inesperados

Dêem uma olhada neste trecho de uma entrevista com a psicanalista Lucia Mees:

Por que a história de Don Juan, sedutor irremediável, se encaixa tão bem no comportamento masculino atual?
Vivemos o tempo das relações descartáveis, nas quais o desejo de fazê-las perdurar esmoreceu. Don Juan construiu mitologicamente este tipo de relação no início da modernidade, ao se contrapor aos valores da época: da religião, da honra e do casamento. Hoje o donjuanismo é o padrão das relações inter-pessoais, no sentido que os laços - centrados no prazer e no aqui-e-agora – sobrepuseram-se ao compromisso. Os homens hoje vem se exonerando desta responsabilidade e concebendo as relações com as mulheres exclusivamente como fonte de prazer e não como forma de fazer perdurar alguns valores sociais.
A pergunta que se faz é a seguinte: por que diabos uma relação com uma mulher deve ser uma "forma de fazer perdurar alguns valores sociais"? Com algumas adaptações este é exatamente o discurso de George W, Bush e sua Direita Cristão em defesa da família e a preservação dos valores tradicionais. E eu que achava que a psicanálise podia ser, ao contrário, um meio de fazer as pessoas se conhcerem mais e romperem com as convenções sociais...
E mais ainda:
Separar amor de sexo, ainda é a defesa neurótica mais comum para se garantir que ele não está confundindo o amor infantil pela mãe com o desejo sexual por uma mulher.
Gostaria saber se esse tipo de pensamento é consenso no atual meio psicanalítico, Se for, FUJAM DOS CONSULTÓRIOS.

Bill Clinton disse que a América está “culturalmente dividida”. Não é de hoje. Os EUA foram fundados sobre a dupla hélice do puritanismo e do materialismo, ou do idealismo e do individualismo. De certo modo, é esse conflito o DNA de sua energia produtiva, de sua visão construtiva do futuro; é o que fez da nação a mais rica do mundo. Em diversas ocasiões históricas, desde a Guerra Civil até o governo Nixon, a polarização ganhou magnetismo trágico ou dramático. O problema é que em muitos desses momentos decisivos houve a superposição da América “profunda”, de raiz religiosa, hipernacionalista, dada a regrar a moral alheia. É uma dimensão inextricável da América. Mas o país e o mundo sempre ganharam quando esteve aquietada.
George W. Bush representa esses EUA retrógrados não só porque invadiu o Iraque, na tradição da política externa do porrete (“big stick”) que tanto mal faz à imagem do país, mas também por suas posições em tantos temas, especialmente os morais. É contra aborto, casamento gay, pesquisa da célula-tronco, é a favor da pena de morte, etc. (No Brasil, como se vê, estaria com a ampla maioria.) Não é simplesmente um conservador, uma pessoa que teme pelo excesso de opções que são atribuídas ao indivíduo moderno, mas um reacionário, que acha que o mundo está indo em caminho infeliz e por isso deve ser vigiado e punido.