Meu amigo
Rafael Lima escreveu um longo artigo em que afirmava que uma dos problemas da modernidade é ter confinado a religião ao quarto de cada um. Com todo respeito, discordo e acho que o declínio da religião não decorre, ao menos não diretamente, da modernidade. Escrevi um londo e-mail em resposta a ele, pensando em editá-lo para depois colocá-lo aqui. Mas como ando meio sem tempo lá vai ele cru mesmo:
Falem mestres!!! Achei que esse artigo do Rafael em seu blog merecia um comentário aqui na lista. Ele está anexo ao meu texto e, se preferirem, podem ler no Blog dele
Acredito que o Rafael errou num ponto: amodernidade não tornou a religião irrelevante, ela apenas confinou a religião à vida privada. Isso não torna a religião irrelevante: para 90% da humanidade as coisas mais importantes da vida- família, amigos, etc, estão na esfera privada. Nem implica na dessacralização das festas religiosas, como aconteceu com as festas juninas.
Acredito que o que tornou a religião irrelevantefoi a era de hiper-consumo detonada pelo desenvolvimento do capitalismo a partir dos anos 50. Nessa época não existiam mais mercados a serem descobertos, todo o mundo, exceto o bloco comunista, já estava em maior ou menor grau integrado ao mercado capitalista. A saída encontrada foi fomentar o crescimento dos mercados já existentes, mediante o incentivo ativo e militante do consumo. Daí que a publicidade e o marketing conheceram esse espantoso crescimento ao ponto de que mercados milionários como o de esportes, são sustentados e pagos quase totalmente pela publicidade.
Esse fomento ao consumo foi combinado a partir dos anos 60 à contracultura, gerando ums mistura explosiva que desembocou no hedonismo desenfreado a partir do anos 70 que na economia capitalistas e traduziu, naturalmente, em hiper-consumo.
Ora, esse modo de vida hedonista e consumista étotalmente incompatível com a doutrina dasgrandes religiões que, em maior ou menor grau,recomendam moderação nos prazeres do corpo e damente. O
Ram, por exemplo, quando passou a levar sua religião mais a sério parou quase que imediatamente de beber álcool e comer carne vermelha. Uma outra consequência desse abandono das religiões tradicionais foi a explosão de cultos neo-pagãos do tipo "new age" que não exigem de seus fiéis qualquer tipo de ascetismo ou renúncia. Na versão mais extrema utilizam inclusive práticas sexuais em seus rituais.
Foi esse fenômeno da adoção do hedonismo e do hiper-consumismo como estilo de vida pelas massas que tornou as religiões tradicionais irrelevantes. Mesmo um jovem fiel católico, em 90% dos casos, não segue a doutrina católica sobre sexualidade pois será submetido a todo tipo de escárnio por parte de seus colegas e será rejeitado por grande parte das garotas de hoje, que não aceitam mais um relacionamento amoroso sem vida sexual ativa.
A grande sacada dos evangélicos, a meu ver, foi conseguir congregar as pessoas insatisfeitas como hedonismo como estilo de vida em comunidades próprias que levam uma vida paralela e discreta, só saindo do armário em ocasiões especiais. Uma delas foi a eleição de George W. Bush.
A existência dessas comunidades evangélicas dá àqueles que a integram força psicológica suficiente para resistir às tentações damodernidade e levar um estilo de vida alheio ao hedonismo vigente. Assim no nosso exemplo, um jovem evangélico pode encontrar nessas comunidades uma garota que também queira permanecer virgem até o casamento, além de desenvolver um círculo de amigos próprio, alheio a existência em escolas, clubes, etc. Nos meus tempos de faculdade havia diversos evangélicos. Em geral eram pessoas cordiais e amistosas mas normalmente, "não se misturavam muito" isto é, assistiam às aulas e caíam fora ,sem participar dos encontros no bar da esquina, chopadas, festas, etc. Provavelmente passavam esse tempo nas atividades de sua Igreja.
Nos ambientes de trabalho eles acabam desenvolvendo grupos próprios. Aqui mesmo no INSS há um grupo de oração que reúne evangélicos dediversas igrejas que se encontram diariamentenuma sala de manhã cedo para rezar.
Em suma, as comunidades evangélicas conseguiram construir uma tribo urbana à parte que rejeita o hedonismo que se tornou "a filosofia de vida" da maior parte das pessoas hoje. Não por acaso sãocontra todas as idéias que signifiquem ainstitucionalização desse status quo hedonista. Assim, por exemplo, são contra o casamento gay porque isso implicaria no reconhecimento oficial do Estado de uma tribo urbana que rejeita os ensinamentos das grandes religiões já que todas reprovam o homossexualismo em maior ou menor grau. Rejeitam o aborto não tanto porque consideram o feto como um ser humano vivo, mas porque sabem (ou intuem) que a possibilidade do aborto legal destrói uma das últimas barreiras fáticas para uma liberdade sexual plena (especialmente para a mulher) que é afalibilidade de todos os métodos anticoncepcionais. Assim, me parece muito perigoso quando se defende que esta ou aquela religião deveria ser "a base de nossa civilização" Isso significa, em outras palavras, que a religião deveria mediar os assuntos também na esfera pública que é inerentemente impositiva. Quer dizer, quando estamos na esfera pública há sempre a possibilidade de imposição legal de condutas. A retirada da religião para a esfera privada é condição essencial para a construção de uma sociedade aberta e pluralista.
É por isso que o Rafael constata que é "cada vez mais difícil enxergar um caminho entre o fundamentalismo e a religiosidade prêt-a-porter, de canto de mesa." Não é apenas difícil. É absolutamente impossível, se esse meio termo significar a reinclusão da religião na esfera pública. O mais engraçado da Guerra Santa de Bush contra o terrorismo é que a sociedade pregada por ele, em última análise, significaria a implantação, no Ocidente, de uma sociedade muito semelhante a uma teocracia islâmica.
Todavia, embora considere Bush um perigo acredito que a modernidade tem forças suficientes para se manter, até porque a nova direita religiosa é um fenômeno tipicamente norte-americano e, mais recentemente, brasileiro(lembram do Crivella?). A Europa parece estar imune ao neo-fundamentalismo cristão assim como não parece que o Japão esteja caminhando para uma teocracia. Na China então, nem se fala porque a ditadura lá existente parece estar disposta a reprimir os religiosos na ponta do fuzil. Assim, parece-me, mesmo nesta ressaca pós-Bush, que a modernidade tem forças suficientes para se manter firme ante o ataque fundamentalista. Para mim, sinceramente, isso é uma ótima notícia. Para Rafael, depois desse artigo, não saberia dizer.
Um forte abraço para todos.